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Como falar da morte às crianças - parte I

 



 COMO FALAR DA MORTE ÀS CRIANÇAS
Parte I











 Recentemente, quando me desloquei em férias à República Checa, visitei Terezin, um forte transformado em campo de concentração, a aproximadamente 60 Km de Praga. Este forte esteve activo durante a II Guerra Mundial. Ao entrar, todos os meus sentidos foram invadidos por sensações que ainda hoje guardo: cada um dos locais, a sua “utilidade”, o frio e a escuridão das celas... e o cheiro, um cheiro indelével dentro e fora das instalações, intactas, como se tivessem sido abandonadas na véspera. Ao visitar o campo, pensei nos milhares de prisioneiros, homens e mulheres, tratados e mortos desumanamente. A visita tornou-se numa espécie de peregrinação.
Ao sair, entrei numa pequena loja de recordações, e enquanto escolhia alguns livros, despertou-me a atenção uma antologia de poemas e desenhos realizados pelas crianças que viviam no ghetto. Até aí eu não tinha tido “espaço mental” para pensar nas crianças. Fiquei chocada, paralisada e atónita perante o sofrimento precoce e desnecessário das crianças, o medo, a proximidade e até a inevitabilidade da sua própria morte bem como a morte dos seus queridos. Como é que aquelas crianças viveram a sua morte? Que ideia fazem as crianças da morte? Como é que vivem o luto? Como encaram a morte dos pais? E a sua?
Este é um dos maiores desafios que a psicologia moderna enfrenta, e não poucas vezes psicólogos clínicos são deslocados para zonas de grandes acidentes e traumatismos para levar alguma ajuda às crianças afectadas; no dia-a-dia da sua actividade. Também são confrontados nos seus gabinetes, por crianças atingidas profundamente pela perda de um ente querido, animal de estimação, amigo ou colega da escola.
A interiorização
A reacção da criança à morte depende do que ela vivencia ou já vivenciou em termos de perda e se esta foi acidental, previsível ou resultado de um desastre inesperado. Se um amigo ou familiar foi morto ou muito magoado, ou se a escola ou a casa da criança foram seriamente danificadas, haverá grande probabilidade que a criança experiencie sérias dificuldades existenciais. Após um acidente traumático em que a criança viu ou continua a ver perder vidas, ela pode desenvolver a Desordem de Stress Pós-traumático cujos danos psicológicos resultam da vivência, do testemunho e da visualização de um evento traumatizante. Esta desordem psicológica raramente se revela logo após o trauma. Frequentemente os sintomas ocorrem alguns meses ou anos mais tarde e a criança poderá ver-se incapacitada de viver saudavelmente, caso não venha a beneficiar do correcto apoio. É por isso que importa estar alerta e aprender a compreender as reacções e comportamento das crianças, de modo a poder apoiá--las devidamente.
Este apoio nem sempre pode ser profissional e por isso importa reflectir sobre a ajuda que pais, familiares, professores e todos aqueles que lidam com maior proximidade com uma criança, podem trazer para a ajudar a lidar com este acontecimento.

Há algumas décadas atrás, nascer e morrer eram acontecimentos familiares vivenciados em casa. As crianças assistiam de perto às reacções de alegria, de perda, de luto dos adultos e integravam estes sentimentos que pareciam naturais, inevitáveis. Nascia-se e morria-se em casa.
Hoje as coisas mudaram: nasce-se e morre-se num hospital, quantas vezes de uma forma solitária, profissional e asséptica. Devíamos preocupar-nos com o que acontece às crianças quando vivenciam a experiência da perda e do luto. Uma das formas mais comuns que as crianças têm para desenvolver a sua capacidade de lidar com estas duas realidades é através da sua própria experiência quando perdem alguém que é significativo e próximo, um dos pais, um parente, um amigo.

Fases do Desenvolvimento da Compreensão da Perda
Para desenvolver uma atitude correcta de apoio perante a perda, é importante considerar a idade, personalidade e estádio de desenvolvimento da criança. Crianças com oito anos podem ter uma maturidade emocional de onze anos, e outra de oito anos poderá emocionalmente estar equiparada a uma de cinco anos. A maneira como se fala da morte a uma criança depende da sua capacidade para perceber factos relacionados com a situação. As crianças estão atentas às reacções dos adultos. A forma como estes reagem à informação da morte e da tragédia é significativa para elas.

A Idade e as Reacções
Antes dos 3 anos: Percebem que os adultos estão tristes, mas não têm uma compreensão do significado da morte.
Em idade pré-escolar: Podem negar a morte e vê--la como um acontecimento reversível. Interpretam a morte como uma separação, mas não como um corte definitivo.
Dos 5 aos 9 anos: Começam a compreender a realidade da morte. Começam a perceber que certas circunstâncias podem resultar em morte. No entanto, nesta altura, a morte é percepcionada como algo que acontece aos outros, não à própria criança nem à família.
Dos 9 aos 12 anos: Necessitam de saber com confiança que todas as pessoas pôem questões acerca da dor e da morte. Muitas vezes é difícil para todos compreender porque é que as coisas acontecem assim.
Adolescentes: Embora os adolescentes compreendam que todas as pessoas acabarão por morrer, estes estão a desenvolver a sua própria identidade e autonomia, podendo sentir-se ameaçados pela perda. Muitos adolescentes sentem que devem agir como adultos e escondem emoções e sentimentos, pois receiam perder o seu auto-controlo. Mas eles necessitam de encontrar um lugar seguro para partilhar a sua tristeza. Sentem-se nesta idade mais confortáveis junto dos seus companheiros de idade, dos seus pares e podem encontrar neles um grupo de apoio importante.
O ponto fulcral é a empatia, a capacidade para entrar no self (no interior, na identidade) da criança ou do adolescente e perceber os seus sentimentos, aceitando-os sem nunca criticar.

A criança e o processo de luto
As pessoas que têm o papel mais importante no processo da compreensão da perda e da morte nas crianças, são os seus pais. As crianças aprendem dos seus pais o que é a morte e como a ela reagir. Por isso, este é um assunto que os pais não deveriam delegar em outros para ajudar os seus filhos. A definição do luto é determinada pela forma como os pais lidam eles próprios com esta situação. Alguns pais pensam que a criança não percebe, ficam ansiosos quando os filhos lhes fazem perguntas. Isso pode levar a uma confusão imensa na mente das crianças e a concluir que os crescidos não gostam de falar da morte. Eis algumas das expressões ou comportamentos das crianças nesta situação, no quadro 1.

Expressões Patológicas no Processo de Luto
Alguns sinais de patologia no processo de luto podem conduzir os adultos no auxílio a prestar às crianças. As crianças que têm sérios problemas neste processo podem mostrar um ou vários destes sinais:
- Um período extenso de depressão no qual perde o interesse por actividades e acontecimentos da vida diária;
- Incapacidade de dormir, perda de apetite, medo prolongado de estar sozinho, voltar a urinar na cama, chuchar no dedo, apegar-se a um brinquedo ou peluche, etc.
- Agir como uma criança mais nova, demonstrando imaturidade por um longo período;
- Imitar excessivamente a pessoa que morreu;
- Repetir frases que reflictam a vontade de se juntar à pessoa perdida;
- Afastar-se dos amigos;
- Diminuição do rendimento escolar ou recusa em voltar para a escola;

Estes sinais de alerta indicam que é necessária ajuda especializada. A tendência seria recorrer a uma psicoterapia realizada por um terapeuta especialista em crianças – o que poderá ajudar a criança a aceitar a morte e auxiliará os que lhe são próximos a ajudar a criança durante o processo de luto. No entanto enfatizamos o papel que outros adultos poderão desempenhar nesta circunstância, se se prepararem convenientemente e forem motivados por uma empatia carinhosa.


Este artigo continua. Para ver clique aqui: http://pelaminhasaude.blogspot.pt/2012/11/como-falar-da-morte-as-cirancas-parte-ii.html


 
Lília Tavares


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