COCKTAIL MEDICAMENTOSO
Associações arriscadas
Não há dúvida de que o organismo humano sofre com o uso de
medicamentos variados ingeridos ao mesmo tempo ou em grandes doses.
“Interações medicamentosas são alterações nos efeitos de um medicamento
em razão da ingestão simultânea de outro medicamento”, explica Paulo
Olzon Monteiro da Silva, chefe da disciplina Clínica Médica da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Essas “combinações”
intensificam ou diminuem a atuação de um medicamento ou agravam seus
efeitos colaterais. O mais grave é que as interações medicamentosas não
envolvem só as drogas que precisam obrigatoriamente de receita médica.
“Também ocorrem com medicamentos de venda livre (aspirina, antiácidos e
descongestionantes)”, afirma Sérgio Grassi, pediatra e toxicologista da
Unifesp. Esse dado chama atenção se considerarmos o fato de que 37% dos
brasileiros com dor de cabeça utilizam medicamentos errados, mas
facilmente encontrados nas farmácias.
* Antiinflamatórios e aspirinas
O uso prolongado dos antiinflamatórios não-hormonais provoca
sangramentos intestinais, úlceras e gastrite. Com a combinação de
antidepressivo, é liberada serotonina (neurotransmissor que provoca a
sensação de bem-estar e sua falta pode levar a pessoa à depressão, por
exemplo) e há aumento na chance do sangramento gastrointestinal.
“Dipirona e aspirina podem provocar a diminuição de glóbulos vermelhos,
plaquetas e glóbulos brancos”, alerta Monteiro da Silva. De acordo com o
médico, o uso de aspirina uma vez ou outra não causa danos à saúde, mas
o consumo contínuo pode mascarar uma doença grave e postergar o
diagnóstico.
INTOXICAÇÕES TAMBÉM OCORREM COM MEDICAMENTOS DE VENDA LIVRE COMO ASPIRINAS
* Antibióticos, antiácidos e anticoncepcionais
A ingestão de antibióticos também requer cautela. “Para os processos
virais não são usados antibióticos. Não pense que qualquer febre já é um
sinal de infecção. Além dos efeitos colaterais, o organismo cria
resistência aos remédios e as infecções ficam mais fortes”, avisa
Monteiro da Silva. Até antiácidos que contêm alumínio, magnésio e
cálcio, quando associados a antibióticos (tetraciclinas) têm seus
efeitos reduzidos. Antibióticos ou antifúngicos de via oral associados a
remédios para colesterol no sangue eleva o risco de danos nos rins.
“Uma dica é repetir o uso do mesmo antibiótico apenas com indicação do
médico”, diz o especialista. Os antibióticos influem até no
funcionamento dos anticoncepcionais orais porque aceleram o metabolismo
hepático, reduzindo as concentrações hormonais, e levam à perda de
eficácia das pílulas.
* Antiinflamatório, antidepressivos e coração
Os antiinflamatórios atuam sobre os rins e diminuem a quantidade
de líquido no organismo. “A retenção de líquido e sal no organismo pode
ser fatal para quem sofre do coração. Gera o aumento da pressão
arterial”, adverte Monteiro da Silva. A mesma situação se dá com quem
tem problemas cardíacos e usam antidepressivos.
Em caso de gripe, o toxicologista Grassi alerta para o consumo de
uma possível superdosagem. “Ingerir um antigripal e um analgésico pode
causar problemas porque ambos contêm paracetamol. Assim, há risco de
superdosagem e intoxicação”, avalia. Na gripe, o médico recomenda:
“Calmantes e remédios para dormir misturados com antigripais e
antialérgicos têm os efeitos dos depressores potencializados”.
* Gotinhas perigosas
Atenção na hora de misturar colírios com os desentupidores nasais.
“Ambos possuem o princípio ativo (nafazolina) e agem como
vasoconstritores para diminuir a vermelhidão dos olhos e combater a
obstrução nasal. Em crianças isso pode ser fatal”, aponta o
toxicologista Grassi. A medicação age no sistema circulatório,
contraindo as veias e obrigando o coração a bater mais rápido para
bombear o sangue a outras partes do corpo, fazendo com que os vasos
vermelhos desapareçam. Por isso, nunca se deve usar nenhum desses
remédios sem antes consultar um médico. Em levantamento no Hospital das
Clínicas de São Paulo, 40% dos pacientes com problemas nos olhos usaram
fórmulas caseiras antes de procurar o médico – água com sal ou açúcar,
flores e até leite materno.
O uso indiscriminado dos descongestionantes nasais causaria
taquicardia e hipertensão arterial, além de desenvolver doenças
cardíacas ou rinite medicamentosa. Pessoas com hipertensão severa,
retenção urinária, pacientes que usam antidepressivos ou têm glaucoma
devem evitar o uso. Combinar remédio para enjôo e descongestionante
nasal pode elevar a freqüência cardíaca e gerar parada.
Corticóides
Os corticóides controlam a alergia ao inibir a ação do sistema
imunológico do paciente. “Por isso alguns medicamentos exigem prescrição
médica, mas outros antialérgicos, não”, afirma Grassi. O uso
indiscriminado de corticóides pode gerar a síndrome de Cushing, cujas
características são o rosto arredondado, tendência à obesidade e
retenção de líquidos. O indivíduo também está propício a desenvolver
hipertensão, fraqueza, depressão, acne, excesso e crescimento de pêlos. E
infecções por fungo ou bactérias agravam-se com a superingestão de
corticóide porque eles inibem as defesas do organismo.
* Glaucoma
“Colírios antibióticos desequilibram a flora normal da superfície
ocular, predispondo ao aparecimento de infecções graves com
microrganismos resistentes. O uso de corticosteróides pode desencadear
catarata e glaucoma. Os colírios anestésicos lesam a córnea,
desencadeando úlceras e inflamações”, alerta Denise de Freitas, médica
do departamento de Oftalmologia da Unifesp.
Pingar soluções caseiras como água com sal ou açúcar, segundo a
médica, agrava o quadro, não somente por adiar o tratamento correto, mas
porque transmite uma infecção ou gera queimadura nos olhos. “Um
paciente que pingava limão nos olhos contra conjuntivite precisou de
transplante de córnea. Vários outros chegam ao meu consultório
praticamente cegos, por uso inadvertido de colírios”.
extraído da revista Viva Saúde (Brazil)