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Aviso

O conteúdo presente neste blog, não pretende de forma alguma substituir o tratamento médico. É meramente de consulta e informação. Se lhe surgir algum sintoma que considere relevante, consulte imediatamente o médico.
Caso tenha alguma dúvida, contacte-nos. Responderemos com a maior brevidade possível.

Tomilho


 






TOMILHO











NOME EM LATIM: Thymus vulgaris L.
FAMÍLIA:
Labiadas
OUTROS NOMES:
Tomilho-ordinário, tomilho-vulgar, arçã, arçanha, cheiros.
HABITAT: Originário dos países mediterrâneos, mais frequente nos da parte ocidental. Prefere os terrenos calcários ou argilosos em regiões montanhosas, expostas ao sol ou áridas. Encontra-se naturalizado em regiões temperadas do continente americano.
DESCRIÇÃO: Pequeno arbusto de até 30 cm de altura, com caules lenhosos e tortuosos e muito ramificados. As folhas são muito pequenas, ovaladas, com os bordos virados para baixo, e de cor mais clara pela face inferior. As flores são pequenas, terminais, de cor rosada ou branca, com o lábio superior dividido em 3 dentes superficiais, e o inferior em 2 profundos.
REFERÊNCIAS HISTÓRICAS: O agradável aroma do tomilho já chamou a atenção dos antigos Egípcios, que o utilizavam na preparação dos unguentos de embalsamar. Sabemos hoje que a sua capacidade para impedir a putrefacção e a proliferação bacteriana se deve ao seu conteúdo em timol e carvacrol, dois poderosos anti-sépticos. Curiosamente, três mil anos depois, como prova do seu poder antimicrobiano, continua a ser empregue por embalsamadores e taxidermistas.
PROPRIEDADES E INDICAÇÕES: Contém 1%-2% de essência rica nos isómeros timol e carvacrol, além de outros monoterpenos como o p-cimeno, borneol e geraniol. A esta essência deve o tomilho a maior parte das suas propriedades. Contém ainda flavonóides e ácidos fenólicos que contribuem para potenciar as propriedades da essência.
O uso do tomilho é apropriado nos seguintes casos:
Anti-séptico (desinfectante): A essência de tomilho tem um poder anti-séptico superior ao do fenol e da água oxigenada. No século XIX e primeira metade do século XX, quando ainda não se conheciam os antibióticos, o tomilho era considerado o “desinfectante dos pobres”. Actualmente está bem comprovada a acção bactericida da essência de tomilho sobre os bacilos tífico, diftérico, tuberculoso (bacilo de Koch), e sobre os meningococos (causadores da meningite), os pneumococos e os estafilococos.
A sua acção anti-séptica localiza-se sobre os aparelhos digestivo, respiratório e o geniturinário, e especialmente sobre as mucosas da boca e garganta, assim como as dos órgãos genitais.
A sua acção antimicrobiana é reforçada pela capacidade que apresenta de estimular o fenómeno da leucocitose (aumento dos glóbulos brancos no sangue), tal como foi possível demonstrar experimentalmente. Ao contrário dos antibióticos, que deprimem o sistema imunitário (defesas), o tomilho estimula-o, favorecendo a actividade dos leucócitos (glóbulos brancos).
O uso do tomilho é, portanto, indicado em todas as doenças infecciosas, em especial as de origem bacteriana que afectam os órgãos digestivos, respiratórios e geniturinários.
Sistema Nervoso: Tonificante geral do organismo; estimula as faculdades intelectuais e a agilidade mental, mas sem os efeitos secundários do café ou do chá, os quais substitui com vantagem. Convém tanto nos casos de esgotamento físico (astenia, debilidade, hipotensão) como psíquico (perda de memória, ansiedade, insónia, depressão, irritabilidade nervosa) (1,2).
Aparelho digestivo: Antiespasmódico, eupéptico (tonificante da digestão) e carminativo (impede as flatulências e a formação de gases). Abre o apetite, favorece a digestão e combate as putrefacções intestinais por desequilíbrio da flora do cólon.
Indicado em gastrenterites e colites provocadas por bactérias do género Salmonella, responsáveis de numerosas infecções por alimentos em mau estado, especialmente durante o Verão (1,2).
Vermífugo (expulsa os vermes intestinais): Particularmente activo sobre as ténias. Também é insecticida de pulgas e piolhos (1,2).
Afecções bucais e faríngeas: Utilizado em bochechos combate as aftas, a piorreia e a estomatite (irritação ou inflamação da mucosa bucal). Em gargarejos torna-se muito eficaz no tratamento das faringites e amigdalites (3).
Aparelho respiratório: Expectorante, antitússico e balsâmico, o que, somado ao seu poder anti-séptico, o torna muito útil em sinusites, laringites, catarros brônquicos e bronquites, asma, tosse espasmódica e tosse convulsa. Nestes casos, recomenda-se tomar a sua infusão (1) ou essência (2), além de fazer banhos de vapor e inalações (4), como se descrevem no quadro junto.
Recomenda-se o seu uso durante as epidemias de gripe, quer em infusão quer na tradicional sopa de tomilho, quer ainda a polvilhar as saladas.
Aparelho geniturinário: Pelas suas propriedades diuréticas e anti-sépticas, torna-se indicado nas infecções urinárias (cistites e glomerulonefrites) (1,2).
Aplicado externamente em lavagens, oferece uma acção favorável em caso de infecções nos órgãos genitais externos devidas a higiene deficiente, diabetes ou outras causas, tanto femininas (vaginite e vulvite com ou sem leucorreia) como masculinas (balanite e postite, infecção da glande e do prepúcio) (5).
Aplicado em cataplasmas quentes, alivia as cólicas renais e as da cistite.
n Anti-reumático: Aplicado externamente em fricções, banhos e cataplasmas, acalma as dores reumáticas provocadas pelo artritismo e pela gota (6,7,8). Ingerido por via oral (1,2), o tomilho é também diurético e sudorífico, pelo que exerce uma acção depurativa, eliminando do sangue o excesso de resíduos ácidos do metabolismo, causadores do artritismo e da gota.
Em aplicação externa, o tomilho alivia igualmente as dores provocadas por: torcicolo, lumbalgias, ciática, artrose, etc. (6,7,8).
n Infecções da pele: Em lavagens e compressas, aplica-se sobre feridas infectadas ou de lenta cicatrização, chagas, úlceras varicosas, frieiras, furúnculos, abcessos, dermatite, etc. (5).
Pela sua acção antiparasitária, é também muito útil em caso de sarna e de infestação por piolhos ou por pulgas.
n Estimulante capilar: Aplicado em loção ou fricção sobre o couro cabeludo, fortalece o cabelo e previne a sua queda. (6).
PARTES UTILIZADAS: As sumidades floridas (folhas e flores).
USO INTERNO:
1 Infusão: 20-30g de sumidades floridas por litro de água. Tomam-se até 5 chávenas diárias. Concentrada (50-60g por litro), adquire um efeito estimulante semelhante ao do café ou do chá, mas sem os seus inconvenientes.

2 Essência: Ver o quadro informativo.
Esta planta nunca deveria faltar em nenhuma farmácia doméstica, nem na despensa, como condimento e para a preparação de deliciosas sopas de tomilho.
USO EXTERNO
3 Bochechos e gargarejos com uma decocção de 100-120g de sumidades por litro de água, que se deixa ferver até que fique reduzida a metade.
4 Banhos de vapor e inalações com a essência.
5 Lavagens e compressas com a decocção indicada.
6 Loções e fricções com a decocção indicada ou com a essência.
7 Banhos: Infusão com 300-500g de tomilho em 2-3 litros de água, que se acrescenta à água do banho.
8 Cataplasmas: Envolver folhas e flores de tomilho desprovidas dos ramos, numa pano de algodão. Aquecer o pano com o tomilho com um ferro de engomar ou sobre um aquecedor, e aplicá-lo sobre a zona dorida.
Essência de Tomilho
- Ingerida por via oral, não exceder a dose de 2 ou 3 gotas, 3 vezes ao dia. Em dose excessiva pode provocar irritabilidade nervosa e descoordenação motora. Estes fenómenos apresentam-se com o uso da essência, e muito raramente com a planta em estado natural.
- Localmente, aplica-se em banhos de vapor e inalações (2 ou 3 gotas em meio litro de água quente), em fricções sobre a parte dorida, ou em lavagens sobre a zona da pele afectada. É um tanto irritante para a pele, pelo que é necessário diluí-la. Tenha-se em conta que o seu poder anti-séptico se manifesta mesmo em diluições superiores a 1:3000 (aproximadamente 6 gotas num litro de água).
- Os banhos de vapor fazem-se deitando 3 a 4 gotas de essência de tomilho em meio litro de água em ponto de ebulição. Respirar os vapores durante 5 minutos, 3 ou 4 vezes por dia.
- As inalações consistem em respirar a essência, após se terem colocado 2 ou 3 gotas sobre as costas da mão ou sobre um lenço.


* Roger, Pamplona, A Saúde pelas Plantas Medicinais, Publicadora Atlântico, S.A., 1996


extraído da revista saúde & Lar n.º 663
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Reflexões sobre o envelhecimento


 




 REFLEXÕES
Sobre o envelhecimento



 por:José Carlos Almeida Nunes





Lembro-me de quando era muito jovem, na adolescência e até depois, de olhar os que então já considerava velhos, e que terão agora a minha “meia-idade” e de pensar para dentro: Eu não vou envelhecer, não me vai acontecer!
Julgo que este sentir será comum nos ainda muito jovens, nos quais de forma mais ou menos consciente, o sentimento de finito ainda não faz parte da ideação... Pelo contrário, à medida que vamos acrescentando anos à vida, isto é, à medida que vamos envelhecendo, vai crescendo em nós, de forma progressiva, esse “pano de fundo” cada vez mais consciente, mais permanente, dessa nossa vulnerabilidade, que resulta de sermos também seres finitos.
É algo que determina uma série de mecanismos adaptativos físicos e psico-sociais, tendentes a repararem o “Self”, agora submetido a grandes erosões resultantes de múltiplas vivências: Os lutos da vida, a reforma, a invalidez, a necessidade de reformar os objectos de prazer, os traumas narcísicos (entendendo aqui as agressões que a nossa auto-estima vai sofrendo ao longo da vida) e, também, o manter tanto quanto possível intactos os nossos projectos de continuidade.
Nesta reforma permanente de SI mesmo surgem, como já anteriormente propus, mecanismos de adaptação, alguns que poderemos considerar saudáveis e outros patológicos, resultantes do exagero, da bizarria, a afastarem-se do “normal”.
Ainda ontem mesmo (este ontem refere-se à véspera do começo destas minhas notas...) um doente de 78 anos, que acompanho de longa data, que é um homem alto, robusto, desenvolto no aspecto motor, com um bom trato, afável, equilibrado, viúvo, que exercera até há pouco um cargo de responsabilidade numa instituição de solidariedade nacional, me dizia, deitado na marquesa do meu gabinete, enquanto eu passava a mão direita pelo seu abdómen procurando alguma anomalia: Sr. Dr., espero chegar aos 80...!
Esta confidência fora-me feita num tom que misturava o orgulho com a esperança e era reveladora do regozijo por mais esses dois anos de vida (apesar de eu acreditar que, no seu íntimo, pairam muitos mais em expectativa...).
Já imaginaram um jovem de 18 anos de idade ter este sentimento em relação aos seus 20??
Julgo que a análise atenta deste expressar tão singelo quanto frequente deste meu doente permite ilustrar de forma simples mas, e até por isso, os considerandos que anteriormente teci sobre a consciência de finito e a sua relatividade ao avanço da idade.
Referi acima o “Self”, que é um termo Inglês cuja tradução para a nossa língua-mãe se pode fazer por “Próprio”, e que aglutina um conceito de entidade única e absolutamente pessoal, o núcleo central da personalidade, que congrega todas as dimensões do indivíduo, sejam cognitivas, afectivas, intelectuais, sociais ou outras.
É este “Próprio” ou “Self”, bastião ou reduto de cada um de nós, que nos posiciona de forma permanente, inconsciente, automática, em relação a tudo e a todos, que defendemos a todo o custo, para conseguirmos manter o sentido da vida, e a possibilidade de continuarmos...
Referi também que esta defesa do “Self” pressupõe mecanismos de adaptação uns saudáveis, outros patológicos.
Um rapaz, que morava no prédio ao lado, mudou-se e foi viver para a província. É esta a forma como, muito frequentemente, assistimos à referência que um idoso faz de outro, que conhece de longa data, e com quem priva desde a sua juventude...
No “meu tempo, as mulheres trabalhavam muito menos fora de casa – diz uma idosa de 80 anos, após um jantar em casa de amigos, e já instalada na sala de convívio, à conversa com outros. Como se o tempo actual não fosse também o seu, como se “o Seu Tempo” fosse apenas aquele em que as mulheres trabalhavam pouco fora de casa, ou seja, o tempo em que ela fora jovem...
Estes idosos aqui “construídos”, o que pretendem de forma inconsciente é manterem o seu elo de ligação a um período das suas vidas em que tinham juventude, força, capacidades intactas, ou de outra maneira, em que era forte e saudável o seu “Self”. É uma forma de projecção no passado, que protege, que de alguma forma, diria saudável, previne a fragmentação do “Próprio”.
Por outro lado, alguns outros, tão incapazes se tornam de manterem o contacto com a realidade, de acompanharem o evoluir da vida e dos acontecimentos em seu redor, que se fecham num mundo fantasioso, que lhes permite perpetuarem, ainda que de forma desadequada e bizarra, um período das suas vidas em que sentiam segurança, em que eram socialmente úteis.
Por estranho que pareça a um leigo, a ansiedade, a depressão, a fobia social, a hipocondria, são artimanhas de índole inconsciente, que evitam a ruptura do indivíduo e que evitam a fragmentação do “Self”.
Quando estes mecanismos de defesa são ultrapassados, perante a incapacidade de aceitarem a transitoriedade dos objectos, do “Self”, a morte voluntária acontece. Sabemos da taxa não negligenciável de suicídios nos idosos...
Outros, sós, pelo desaparecimento de familiares e amigos, recorrem a um animal doméstico, com quem privam, a quem projectam toda a sua afectividade, toda a sua intimidade, por outras palavras, o tal animal é colonizado, é “enchido” pelo idoso, que lhe reconhece alma, fidelidade, ...vida e esperança.
Recordo uma doente de oitenta e alguns anos, só na vida, que tinha num cão o último reduto da sua existência. A morte deste animal lançou-a num luto muito doloroso, de muito difícil resolução, do qual saiu dificilmente, com muita ansiedade e agitação.
Lembrei-me de Shakespeare, que esvaziou alguns dos seus personagens, tirou-lhes o “Self”, transformando-os em figuras de projecção, de identificação dos espectadores, como no seu Ricardo II, rei humano sim, mas sem estrutura pessoal e única, sem o “Próprio”. Eugène Ionesco traduziu esta forma de sentir: “Quando Ricardo II é preso na sua cela, só, não é apenas a ele que vejo, mas sim a todos os reis depostos, e não só a todos os reis, mas também os nossos próprios valores, aquilo em que acreditamos, está ali, só...
Quando Ricardo II morre, olho a morte de tudo o que mais venero, sou eu próprio, que morro com Ricardo II.”
Faz sentido que a morte do cão da minha idosa doente determinasse também quase a sua...




José Carlos Almeida Nunes
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Como falar da morte às crianças - parte II



 





 COMO FALAR DA MORTE ÀS CRIANÇAS
Parte II











Peparar uma criança para a perda de alguém deve fazer parte da vida de todos os dias e ajudará a criança a aceitá-la melhor como um processo natural. Flores que secam e morrem, um animal de estimação que adoece e morre podem providenciar uma oportunidade para falar à criança desta inevitabilidade.


É possível falar à criança das pessoas mais idosas que ela conhece, do seu processo de envelhecimento e morte. Podem encontrar-se alguns livros que facilitam este diálogo, que se forem lidos em conjunto permitirão abordar com a criança os sentimentos que desenvolve sobre o assunto.
Quando a morte acontece numa família, os pais e outros familiares por vezes não encontram palavras para explicar às crianças e ajudá-las deste modo a lidar com o acontecimento. Contudo, as crianças necessitam dos adultos para as ajudar a lidar com a morte. Então, como explicar a morte às crianças?
- Fale com palavras simples;
- Seja verdadeiro;
- Não hesite em usar palavras como “morto” e “morte”;
lEncoraje a criança nas suas perguntas: “O que é a morte?”. Pode responder-lhe: “Morte significa que o corpo parou de trabalhar e não consegue fazer nada do que fazia antes: não fala, não vê, não ouve, não pensa, não sofre, não sente nada”.
Dependerá das convicções religiosas de cada família, mas esta é uma altura importante para confrontar correctamente a criança com as suas bases existencialistas (da família ou da sua cultura). É no entanto FUNDAMENTAL QUE ESSAS CONVICÇÕES AJUDEM A RESOLVER O PROBLEMA E NÃO A COMPLICÁ-LO AINDA MAIS. Por exemplo, para os cristãos, uma das mais poderosas ajudas que pode ser dada neste âmbito a uma criança é tranquilizá-la informando-a do facto de que a pessoa morta está a”dormir” e que um dia irá acordar. Mostrar-lhe a naturalidade do “sono” e ajudá-la com uma das promessas da Bíblia – que aponta para Jesus como o autor da ressurreição quando Ele voltar – trará tranquilidade perante a condição mortal da humanidade. É altura para ler com a criança a história da vida de Jesus, e do seu encontro com a menina de doze anos morta na sequência de uma doença. Em torno do texto a criança pode construir a sua relação de modo integrado.
Este contacto com a criança deve ser feito preferencialmente sentando-a ao seu lado, tomando-a nos braços e explicando-lhe com palavras simples tais como: “Aconteceu uma coisa muito, muito triste. O papá adoeceu com uma doença grave que nem toda a gente tem e morreu. A culpa da morte não é dele, não é tua. Vamos sentir muito a falta dele porque gostávamos muito dele e ele amava-nos muito”. É necessário explicar-se à criança que a consequência do adoecer nem sempre é a morte. 

Devem as Crianças Assistir ao Funeral?
Muitos perguntam se as crianças devem assistir a um funeral. Deve ter-se em conta os sentimentos das crianças. Se não quiserem ir, não devemos forçá-las nem fazê-las sentirem-se culpadas por não quererem ir. Se quiserem ir, devemos apoiá-las, dar-lhes uma descrição detalhada, através de palavras simples, do que irá ter lugar e até do facto de haver um caixão que pode estar aberto ou fechado. Explique-lhe também que verá muitas pessoas a chorar porque estão tristes. Mais uma vez, responda às suas perguntas e assegure--lhe de que pode não assistir, se quiser. Mas se ela decidir ir, ajude-a, entre outras coisas, a compreender que existem algumas noções de higiene que devem ser respeitadas. Na cultura portuguesa o beijo ao morto constitui um dos hábitos mais insalubres que podem ter lugar. Assim se transmitem muitas doenças e se prejudica a saúde. Por isso ajude-a a construir uma relação mais saudável estando perto dela para evitar qualquer perda de controlo (como querer atirar-se para o morto ou mesmo para o buraco onde o caixão irá ser colocado). Motive-a a não dar beijos indiscriminadamente salvaguardando assim a transmissão microbiana provocada pelo acto, mesmo se praticado só por uma pessoa no funeral. 

Como Não Falar da Morte às Crianças
Não utilize certos termos quando falar com as crianças, pois pode confundi-las. As crianças tendem a perceber as coisas muito “à letra”:
- As crianças sentirão medo de dormir e da hora de deitar se lhes disser “está a dormir” e não compreenderem que depois “voltarão a acordar”, como aconteceu com a menina acima referida;
- As crianças sentirão a angústia da separação se lhes disserem “foi-se embora” ou “foi fazer uma longa viagem”;
- As crianças sentirão medo ou odiarão Deus se lhes disser: “Deus quis a avó perto d’Ele”. 

Como Ajudar a Criança a Lidar Com a Perda
As crianças nem sempre mostram que estão deprimidas. Como já referimos, sintomas como a alteração no seu comportamento habitual e nas suas interacções diárias são sinais de que a criança está triste. Há muitas maneiras de ajudar a criança em sofrimento. Citaremos apenas algumas:
- Desenvolva e mantenha um diálogo aberto com a criança;
- Encorage a criança a expressar os seus sentimentos;
- Assegure com convicção à criança que terá sempre alguém a cuidar dela e a amá-la;
- Recorra a aconselhamento psicológico se achar que a criança em sofrimento se encontra em risco.
Sérias consequências podem advir se se ignorar esta situação. As crianças que não tiverem na altura certa adultos que lhes transmitam convenientemente o que está a acontecer, que lhes dêem apoio para resolver o seu luto e a deixem exteriorizar os seus sentimentos, poderão vir a ser adolescentes e adultos com muitas dificuldades.
A família, os amigos, grupos religiosos, grupos de interajuda e aconselhamento psicológico poderão ser o suporte necessário para o desenvolvimento de futuros adultos mais estáveis emocional e psicologicamente. Por isso convidamo-lo a entrar nesta rede de pessoas adultas que decidiram “pegar uma criança com o coração para aliviar as suas tristezas”. Verá que vale a pena!
(…)
Pegar uma criança com o coração
para aliviar as suas tristezas.
docemente sem falar, sem vergonha,
pegar uma criança contra o coração
tomar uma criança nos braços.
Mas pela primeira vez
verter lágrimas sem abater a sua alegria
pegar uma criança contra si.
(…)
Pegar uma criança com amor
pegar uma criança tal como ela vem
e consolar as suas mágoas
viver a sua vida nos anos mais próximos.
Pegar na criança pela mão
observando-a até ao fim do caminho. 

Yves Duteil
(tradução livre)




 
Lília Tavares



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Como falar da morte às crianças - parte I

 



 COMO FALAR DA MORTE ÀS CRIANÇAS
Parte I











 Recentemente, quando me desloquei em férias à República Checa, visitei Terezin, um forte transformado em campo de concentração, a aproximadamente 60 Km de Praga. Este forte esteve activo durante a II Guerra Mundial. Ao entrar, todos os meus sentidos foram invadidos por sensações que ainda hoje guardo: cada um dos locais, a sua “utilidade”, o frio e a escuridão das celas... e o cheiro, um cheiro indelével dentro e fora das instalações, intactas, como se tivessem sido abandonadas na véspera. Ao visitar o campo, pensei nos milhares de prisioneiros, homens e mulheres, tratados e mortos desumanamente. A visita tornou-se numa espécie de peregrinação.
Ao sair, entrei numa pequena loja de recordações, e enquanto escolhia alguns livros, despertou-me a atenção uma antologia de poemas e desenhos realizados pelas crianças que viviam no ghetto. Até aí eu não tinha tido “espaço mental” para pensar nas crianças. Fiquei chocada, paralisada e atónita perante o sofrimento precoce e desnecessário das crianças, o medo, a proximidade e até a inevitabilidade da sua própria morte bem como a morte dos seus queridos. Como é que aquelas crianças viveram a sua morte? Que ideia fazem as crianças da morte? Como é que vivem o luto? Como encaram a morte dos pais? E a sua?
Este é um dos maiores desafios que a psicologia moderna enfrenta, e não poucas vezes psicólogos clínicos são deslocados para zonas de grandes acidentes e traumatismos para levar alguma ajuda às crianças afectadas; no dia-a-dia da sua actividade. Também são confrontados nos seus gabinetes, por crianças atingidas profundamente pela perda de um ente querido, animal de estimação, amigo ou colega da escola.
A interiorização
A reacção da criança à morte depende do que ela vivencia ou já vivenciou em termos de perda e se esta foi acidental, previsível ou resultado de um desastre inesperado. Se um amigo ou familiar foi morto ou muito magoado, ou se a escola ou a casa da criança foram seriamente danificadas, haverá grande probabilidade que a criança experiencie sérias dificuldades existenciais. Após um acidente traumático em que a criança viu ou continua a ver perder vidas, ela pode desenvolver a Desordem de Stress Pós-traumático cujos danos psicológicos resultam da vivência, do testemunho e da visualização de um evento traumatizante. Esta desordem psicológica raramente se revela logo após o trauma. Frequentemente os sintomas ocorrem alguns meses ou anos mais tarde e a criança poderá ver-se incapacitada de viver saudavelmente, caso não venha a beneficiar do correcto apoio. É por isso que importa estar alerta e aprender a compreender as reacções e comportamento das crianças, de modo a poder apoiá--las devidamente.
Este apoio nem sempre pode ser profissional e por isso importa reflectir sobre a ajuda que pais, familiares, professores e todos aqueles que lidam com maior proximidade com uma criança, podem trazer para a ajudar a lidar com este acontecimento.

Há algumas décadas atrás, nascer e morrer eram acontecimentos familiares vivenciados em casa. As crianças assistiam de perto às reacções de alegria, de perda, de luto dos adultos e integravam estes sentimentos que pareciam naturais, inevitáveis. Nascia-se e morria-se em casa.
Hoje as coisas mudaram: nasce-se e morre-se num hospital, quantas vezes de uma forma solitária, profissional e asséptica. Devíamos preocupar-nos com o que acontece às crianças quando vivenciam a experiência da perda e do luto. Uma das formas mais comuns que as crianças têm para desenvolver a sua capacidade de lidar com estas duas realidades é através da sua própria experiência quando perdem alguém que é significativo e próximo, um dos pais, um parente, um amigo.

Fases do Desenvolvimento da Compreensão da Perda
Para desenvolver uma atitude correcta de apoio perante a perda, é importante considerar a idade, personalidade e estádio de desenvolvimento da criança. Crianças com oito anos podem ter uma maturidade emocional de onze anos, e outra de oito anos poderá emocionalmente estar equiparada a uma de cinco anos. A maneira como se fala da morte a uma criança depende da sua capacidade para perceber factos relacionados com a situação. As crianças estão atentas às reacções dos adultos. A forma como estes reagem à informação da morte e da tragédia é significativa para elas.

A Idade e as Reacções
Antes dos 3 anos: Percebem que os adultos estão tristes, mas não têm uma compreensão do significado da morte.
Em idade pré-escolar: Podem negar a morte e vê--la como um acontecimento reversível. Interpretam a morte como uma separação, mas não como um corte definitivo.
Dos 5 aos 9 anos: Começam a compreender a realidade da morte. Começam a perceber que certas circunstâncias podem resultar em morte. No entanto, nesta altura, a morte é percepcionada como algo que acontece aos outros, não à própria criança nem à família.
Dos 9 aos 12 anos: Necessitam de saber com confiança que todas as pessoas pôem questões acerca da dor e da morte. Muitas vezes é difícil para todos compreender porque é que as coisas acontecem assim.
Adolescentes: Embora os adolescentes compreendam que todas as pessoas acabarão por morrer, estes estão a desenvolver a sua própria identidade e autonomia, podendo sentir-se ameaçados pela perda. Muitos adolescentes sentem que devem agir como adultos e escondem emoções e sentimentos, pois receiam perder o seu auto-controlo. Mas eles necessitam de encontrar um lugar seguro para partilhar a sua tristeza. Sentem-se nesta idade mais confortáveis junto dos seus companheiros de idade, dos seus pares e podem encontrar neles um grupo de apoio importante.
O ponto fulcral é a empatia, a capacidade para entrar no self (no interior, na identidade) da criança ou do adolescente e perceber os seus sentimentos, aceitando-os sem nunca criticar.

A criança e o processo de luto
As pessoas que têm o papel mais importante no processo da compreensão da perda e da morte nas crianças, são os seus pais. As crianças aprendem dos seus pais o que é a morte e como a ela reagir. Por isso, este é um assunto que os pais não deveriam delegar em outros para ajudar os seus filhos. A definição do luto é determinada pela forma como os pais lidam eles próprios com esta situação. Alguns pais pensam que a criança não percebe, ficam ansiosos quando os filhos lhes fazem perguntas. Isso pode levar a uma confusão imensa na mente das crianças e a concluir que os crescidos não gostam de falar da morte. Eis algumas das expressões ou comportamentos das crianças nesta situação, no quadro 1.

Expressões Patológicas no Processo de Luto
Alguns sinais de patologia no processo de luto podem conduzir os adultos no auxílio a prestar às crianças. As crianças que têm sérios problemas neste processo podem mostrar um ou vários destes sinais:
- Um período extenso de depressão no qual perde o interesse por actividades e acontecimentos da vida diária;
- Incapacidade de dormir, perda de apetite, medo prolongado de estar sozinho, voltar a urinar na cama, chuchar no dedo, apegar-se a um brinquedo ou peluche, etc.
- Agir como uma criança mais nova, demonstrando imaturidade por um longo período;
- Imitar excessivamente a pessoa que morreu;
- Repetir frases que reflictam a vontade de se juntar à pessoa perdida;
- Afastar-se dos amigos;
- Diminuição do rendimento escolar ou recusa em voltar para a escola;

Estes sinais de alerta indicam que é necessária ajuda especializada. A tendência seria recorrer a uma psicoterapia realizada por um terapeuta especialista em crianças – o que poderá ajudar a criança a aceitar a morte e auxiliará os que lhe são próximos a ajudar a criança durante o processo de luto. No entanto enfatizamos o papel que outros adultos poderão desempenhar nesta circunstância, se se prepararem convenientemente e forem motivados por uma empatia carinhosa.


Este artigo continua. Para ver clique aqui: http://pelaminhasaude.blogspot.pt/2012/11/como-falar-da-morte-as-cirancas-parte-ii.html


 
Lília Tavares


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