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Cancro nas idades mais jovens


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 CANCRO
Nas idades mais jovens













Se bem que a incidência do cancro nos primeiros anos de vida seja muito mais baixa do que na idade adulta, o seu aparecimento envolve sempre uma carga de angústia muito particular, dado que atinge seres humanos com todo o programa da vida à sua frente. Considerando estatísticas europeias, a probabilidade de uma criança até aos 15 anos vir a sofrer de cancro é de 1 para 500/600. As doenças tumorais malignas, no seu conjunto, representam a segunda causa de morte na infância, logo a seguir aos acidentes.

Em paralelismo com os progressos feitos na luta contra o cancro em todas as idades, sobretudo nas últimas três décadas, também os avanços na idade infantil e juvenil são muito significativos. A contribuição da moderna cirurgia, da radioterapia, da quimioterapia e, mais recentemente, da imunoterapia, têm permitido taxas de sobrevivência aos 5 anos, para o conjunto dos cancros da infância, da ordem dos 70%. Este progresso não esconde, no entanto, a carga de futuros problemas de desenvolvimento e de alterações das funções endócrinas da criança (como as relacionadas com a puberdade), para além da probabilidade de, em consequência do tratamento, vir a surgir um segundo tumor.

Origem e características
O cancro da criança difere na sua etiologia da generalidade dos cancros do adulto, dado que os carcinomas são muito raros na infância. Os tumores pediátricos são, na maioria, originários das células embrionárias primitivas, sem influência significativa dos fatores ambientais. É o contrário do que se passa no adulto, em que o ambiente e o estilo de vida (álcool, tabaco, alimentação, profissão, etc.) podem ser determinantes no aparecimento do tumor. Desta forma, não é de considerar um plano de prevenção do cancro da criança, embora seja já a partir destas idades que se possa começar a prevenir alguns dos cancros do adulto, nomeadamente os da pele.


A incidência do cancro é ligeiramente maior nos rapazes do que nas meninas, variando o seu pico máximo, consideravelmente, consoante o tipo de tumor.
A sobrevivência aos 5 anos, considerando o conjunto de todas as formas de neoplasia na infância, é de cerca de 70%. É ao fim desse período, também, que a maioria dos cancros poderão ser considerados curados. 


A tolerância da criança ao tratamento do cancro, em geral, é melhor do que a do adulto no que se refere à cirurgia e à quimioterapia e pior para a radioterapia. As crianças, em especial, reagem muito bem à quimioterapia, que tem conhecido avanços muito significativos nos últimos anos.





Principais tipos de tumor

Os tipos mais comuns de cancro na criança e no adolescente são:


1. As leucemias, que representam cerca de 30% de todos os cancros nestas idades. A mais comum é a linfoblástica aguda (LLA), com uma percentagem de 85% do total. É fundamental, para o seu tratamento, o diagnóstico precoce, nem sempre possível logo nos primeiros dias, dado que os sintomas que a criança pode apresentar (palidez, febre, cefaleias, …) podem ser comuns a outras patologias. 


2. A seguir, em frequência, vêm os tumores cerebrais, que correspondem a cerca de 20% dos tumores malignos em idade pediátrica. Os sintomas iniciais podem, também, não ser exclusivos, como as dores de cabeça e os vómitos, que, neste caso, são provocados pela hipertensão intracraniana, característica do tumor. 


3. Em terceiro lugar, surge o neuroblastoma, originado no sistema nervoso simpático, e que se pode localizar onde este se distribui: glândulas suprarrenais (40% dos casos), tórax, abdómen ou na região cervical. É um tumor exclusivamente infantil, das primeiras idades (até aos 14 anos) e que tem um bom prognóstico quando tratado nos estádios iniciais, podendo mesmo regredir espontaneamente se for congénito. 


4. Segue-se o tumor de Wilms, ou nefroblastoma, que é o tumor renal mais frequente na idade pediátrica e que pode não apresentar sintomas apreciáveis durante anos e surgir mesmo no feto. Pode ser causado por uma anomalia genética, atingir só um rim ou os dois (4% dos casos). É curável com terapêutica conjugada de cirurgia e quimioterapia. 


5. Por último, cito alguns tumores mais raros, como os linfomas (mais habituais em crianças mais velhas) e os tumores hepáticos, ósseos e dos tecidos moles.


Desafios Familiares

O aparecimento do cancro na idade pediátrica é sempre um enorme choque e desafio para o doente (sobretudo se mais velho e mais consciente) e, particularmente, para a sua família. Para esta, pode mesmo levar a uma alteração de toda a dinâmica familiar, provocando uma inversão de papéis entre pai e mãe, recriminações, agressividade e até rotura conjugal. Assim, conforme os casos, pode haver aumento da coesão familiar ou, pelo contrário, a sua completa disfunção. No caso de haver irmãos, estes podem ser muito afetados negativamente, apresentando problemas de insucesso escolar, enurese noturna, depressão e, mesmo, atitudes antissociais e comportamentos marginais. Algumas destas situações podiam até já existir de forma larvar, mas são agora evidenciadas pelo stresse familiar desencadeado pela doença grave de um dos seus membros.
Perante este quadro complexo, o tratamento e acompanhamento de uma situação patológica deste tipo obriga sempre a uma abordagem interdisciplinar envolvendo toda a família, procurando, com informação adequada e bom senso, minimizar os impactos negativos da doença sobre todos os membros da família, em especial as outras crianças.
Os progressos constantes que a Medicina tem feito no diagnóstico e tratamento destas situações podem ser um motivo de esperança, capaz de aliviar um pouco a natural angústia familiar de se saber que a um dos seus membros mais pequenos e tão queridos foi diagnosticado um cancro.





Samuel Ribeiro
Médico Pediatra




extraído da revista Saúde & Lar n.º  780
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